domingo, 5 de janeiro de 2020

C i g a r r a


Não foi à toa que sonhei com ela. Eu sei. 
A compreendo. Me identifico.
Intensa.
Barulhenta demais. 
Irritante demais. 

Será que também viverei pouco como ela?

Mas, por que ela estava morta e desintegrada na minha cabeça, enroscada em meus cabelos?

Acho que morrerei sem saber o significado real desse sonho. 

"podem viver anos, às vezes 2, às vezes 17 anos debaixo da terra, numa vida que consiste em apenas sugar a seiva das raízes que a cercam."

"Mas quando chega a hora de se transformar num adulto, tudo muda. Na fase adulta ela tem a oportunidade de voar, cruzar os céus, enfrentar a liberdade da vida em todo o seu fulgor. Mas nada é de graça. Essa vida dura não durará mais do que um singelo mês. Além disso, há perigos por toda parte"

"O pouco tempo de vida das cigarras adultas faz com que elas tenham que agir rápida e assertivamente"

"colocam as cigarras injustamente como insetos preguiçosos."

"por serem barulhentas e irritantes. Não é fácil ser uma cigarra."

"O céu azul pálido sustenta gordas nuvens de barriga magenta no final do crepúsculo, e aos poucos os troncos e as folhas se tingem de negro, restando-lhes apenas as silhuetas e uma atmosfera surrealista. Vênus aparece solitário e brilhante, dando início a mais uma noite quente de verão. 
As cigarras estão a pleno vapor gritando loucamente..." (por algo)

Ainda "debaixo da terra" estou eu, só sugando a seiva, no 15° ano da fase de ninfa. Estou chegando perto da transformação para a fase adulta.
Irei voar, cruzarei os céus, enfrentarei a liberdade da vida.
Será que tudo isso também durará tão pouco quanto na vida da cigarra?
(sempre carrego comigo a impressão e a sensação de que sim).
Afinal, existem os perigos por toda parte.
Precisarei agir rapidamente, intensamente e terei que acertar! 
Passarei por aqui sem ter muita compreensão por parte da maioria esmagadora das pessoas. Afinal, passei maior parte da minha vida "parada", sem trabalhar (igualzinha a cigarra da parábola). Preguiçosa!
Também sou/fui barulhenta e irritante. Não é/foi fácil ser eu.
Pode ser que eu me vá por esta hora. Aquela hora que tanto tenho apreço. 
Quando o sol já se foi e resta só sua luz à distância, atingindo as nuvens e dando o tom descrito tão lindamente acima, pelo zoólogo. E que as árvores realmente ficam negras e mostram somente suas silhuetas. É nessa hora. Será nessa hora. Naquela hora. Aquela que tanto amo. E faço questão de gritar aos quatro cantos do mundo, isso. 
E é gritando (POR ALGO) que findo-me. Assim como a cigarra incompreendida e mal interpretada por toda sua curta e intensa vida.



Nenhum comentário:

Postar um comentário